14 Outubro até 11 Novembro

Nuno Trigueiros

Nas sombras da Cidade

Exposições

Espaço Triângulo

Não há luz, mas há um brilho no escuro
É o reflexo de tudo
O que sobrou no meu mundo
“Não há luz no meu quarto”, Árvore Kriminal, 2011
Allen Halloween

romper a sombra
Numa aldeia nos arredores das Caldas da Rainha, Nuno Trigueiros instala-se para mais uma residência artística. A aparente estranheza da sua presença urbana na bucólica serenidade rural é ultrapassada pela possibilidade que se abre: trabalhar a potência política e estética do que pode ser criado,
a cada momento, desde um lugar periférico. Esse tipo de lugar colocado fora do centro, ainda que sob o jugo da sua sombra.

É entre a fluidez e a diferença destas duas periferias que o trabalho parece acontecer. Da fluidez, vem a possibilidade de convocar os corpos digras e as suas extensões, a sua presença prolongada na arquitetura e no movimento que atravessa o espaço urbano, como se o “espírito digra” pudesse temporariamente habitar a condição periférica da aldeia. Da diferença, vem a disponibilidade para um certo tipo de experiência e predisposição que o barro traz.

Para os Wauja, uma comunidade oleira da região do Alto Xingu (Amazónia), os artefactos de barro que criam podem ser percebidos como “corpos miniaturizados” que dependem de uma relação desenho-corpo, em que um não pode ser entendido sem o outro. Numa peça de cerâmica Wauja é a pintura em si, colocada sobre o barro, que torna a peça numa coisa viva, ou seja, em algo que participa do mundo, que age sobre ele, junto com os humanos. Este exemplo da experiência estética dos artistas Wauja permitiu-me abrir espaço para pensar o processo criativo de Nuno Trigueiros na aldeia de Córtem para além de uma mera transição de linguagem - do pano ou da tela para a tridimensionalidade do barro. A ordem pela qual estas novas peças se foram manifestando é tão importante quanto as peças em si, tal como a pintura para os Wauja. Primeiro surgiram as extensões digra: as bolsinhas, as cadeiras, os gigantes, as carruagens de comboio, os pendentes para fios e colares. Só mais tarde começaram a saltar das pinturas as figuras humanas, várias, muitas, massivamente. Essa comunidade de digras de barro - mais ou menos informes, uns mais altos outros mais baixos - aparece quase no final do processo criativo, como uma necessidade, como que caídos da escuridão de um céu mítico, descendo como um brilho sobre a aldeia, para caminharem de volta até à cidade. O artista, como um demiurgo, dá existência sólida às suas personagens, devolvendo aos panos a força da sua tridimensionalidade de barro.

Imaginar estas peças como saídas da própria tela-pano, para a ela regressar, atribui ao gesto artístico a capacidade de rompimento de realidades e de mundos. Mas este gesto e a sua força vêm de um lugar concreto. Tal como uma batida, uma rima ou uma missão a um comboio - entre outras formas de expressão e resistência cultural urbana produzidas nas sombras da cidade -, este gesto abre uma fissura de luz. Uma fissura que desejamos poder vir a transformar o lugar que ilumina.

Teresa Fradique


nota: Este texto beneficiou de uma conversa com o artista, semanas antes da montagem da exposição. Sobre a comunidade Wauja e os seus artistas ver os textos do antropólogo Aristóteles Barcelo Neto.

Nuno Trigueiros (n. 1997) é pintor, colecionador de imagens e artista multidisciplinar. A sua prática está profundamente enraizada nas comunidades da periferia de Lisboa, onde nasceu, cresceu e continua a viver. O seu trabalho explora questões de território, identidade e resistência, através de diferentes meios e linguagens visuais. É cofundador e membro ativo do colectivo artístico Unidigrazz.