25 Junho até 29 Julho

Vasco Barata

Ghost Parade

Exposições

Espaço Quadrado

Ghost Parade
Vasco Barata
Vivemos num tempo assombrado. Não apenas pelos espectros do passado, mas pelas imagens do futuro que se tornaram incapazes de se realizar. Entre a aceleração tecnológica, a crise ecológica e a persistência das formas de exploração capitalista, o presente parece suspenso num regime de temporalidade paradoxal: tudo muda incessantemente e, simultaneamente, nada parece poder mudar. É neste horizonte definido por Mark Fisher que Ghost Parade se inscreve.

As duas obras que compõem a exposição interrogam a produção contemporânea do imaginário enquanto campo de disputa. A primeira apresenta uma imagem onde se cruzam os dispositivos da cultura de massas e a persistência de formas simbólicas arcaicas: o esqueleto, a caveira, o negro e o branco, o morcego. O trabalho sugere que a colonização do imaginário pelo capitalismo não opera apenas ao nível do consumo ou da circulação de mercadorias, mas infiltra-se profundamente nas estruturas afetivas e narrativas
através das quais aprendemos a habitar o mundo desde a infância. Contudo, nenhuma hegemonia é absoluta. Sob a superfície aparentemente homogénea da cultura globalizada permanecem camadas mais antigas, resíduos, sobrevivências e fantasmas.

A figura do Dia das Bruxas surge aqui como sintoma dessa persistência. Se a sua imagem foi amplamente absorvida pela indústria cultural, ela continua a remeter para formas de sociabilidade coletiva, para temporalidades cíclicas e para imaginários que escapam parcialmente à racionalidade produtiva. O paganismo aparece, assim, não como uma origem perdida, mas como uma presença espectral que regressa através das fissuras da cultura dominante. A “parada fantasma” do título pode ser entendida como a manifestação dessas forças residuais que continuam a atravessar o presente, revelando que toda a ordem simbólica contém aquilo que procura excluir.

A segunda obra assume a forma de um postal contendo um haiku escrito conjuntamente por Vasco Barata e o ChatGPT. A escolha deste formato mínimo não procura produzir uma síntese, mas habitar um intervalo. Entre a iminência da catástrofe ambiental e económica e a possibilidade ainda indeterminada de
um outro futuro, o poema permanece suspenso num estado de expectativa. Não anuncia nem descreve; limita-se a assinalar uma passagem.

A colaboração entre artista e inteligência artificial introduz uma questão decisiva para o nosso tempo: quem produz as imagens, as narrativas e os horizontes de futuro que orientam a experiência coletiva? Se o capitalismo contemporâneo se caracteriza pela captura da imaginação, a emergência de sistemas generativos de linguagem torna ainda mais complexa a relação entre autoria, pensamento e produção simbólica. Neste contexto, o haiku funciona simultaneamente como exercício de coescrita e como alegoria de uma subjetividade cada vez mais distribuída entre agentes humanos e não humanos.

Ghost Parade reúne, assim, duas formas de assombração. Por um lado, o retorno de imaginários arcaicos que persistem sob a superfície da cultura contemporânea; por outro, a antecipação espectral de futuros e novas possibilidades. Entre memória e (pré)visão, ruína e possibilidade, as obras habitam esse espaço instável onde o presente se revela como um campo de forças em permanente negociação.

Vasco Barata (Lisboa, 1974) é artista visual. A sua prática desenvolve-se através do desenho, da fotografia, do vídeo, da instalação e da escrita, explorando as relações entre imagem, memória, cultura visual e imaginário coletivo. O seu trabalho investiga frequentemente os modos como os sistemas económicos, políticos e mediáticos moldam a perceção do real, articulando referências provenientes da cultura popular, da história da arte e do quotidiano contemporâneo.
Expõe regularmente desde o final da década de 1990, tendo apresentado o seu trabalho em museus, centros de arte e espaços independentes, em Portugal e no estrangeiro.