10 Outubro até 31 Outubro

Isabel Garcia

Poppy-Day

Exposições

Espaço Triângulo

Poppy Day – entre a memória e o esquecimento / between memory and forgetting


As pinturas que compõem Poppy Day nasceram da persistência de uma imagem: as cápsulas das papoilas depois da floração, quando o vermelho já partiu, mas a promessa da semente permanece. São vestígios de uma vida interrompida e, ao mesmo tempo, indícios de continuidade.

Nos campos de guerra, as papoilas cresceram sobre o solo ferido — e tornaram-se o emblema da memória. Nas minhas obras, não há heroísmo nem luto épico: há apenas o rasto daquilo que resiste ao esquecimento. Os caules delgados erguem-se como linhas de respiração sobre o azul, um azul que é tanto céu como água, ar como superfície. É o espaço onde a lembrança se dilui, onde o tempo escorre.


As palavras L’OUBLI e LA MÉMOIRE, inscritas no centro do conjunto, não se opõem; coexistem. Foi minha intenção criar entre ambas uma tensão num território comum onde o esquecimento não é negação, mas parte do processo de lembrar. Paul Ricoeur recorda-nos que a memória é inseparável do esquecimento: lembrar implica escolher, preservar algumas imagens e deixar outras cair no silêncio.

Cada peça é uma tentativa de escutar esse silêncio. A pintura torna-se então arquivo líquido — um espaço onde as camadas se sobrepõem, se apagam e se revelam novamente, como sedimentos de um tempo interior. O gesto repete-se, quase ritual, e o azul torna-se um corpo de memória em suspensão. O azul passa a ser a minha cor de resistência.

As papoilas que restam — já sem pétalas, apenas cápsulas e vestígios — são também corpos de resistência. Transportam a contradição essencial da planta: da sua seiva nasce o ópio, substância do esquecimento; das suas sementes, a possibilidade da vida. Assim, a obra oscila entre o entorpecimento e a vigília, entre a dissolução e o impulso de viver.

A instalação das cápsulas em sacos de armazenamento de leite materno prolonga essa ambiguidade. São recipientes de nutrição e de arquivo — lugares de retenção e de passagem.

Preservam o pó da memória, aquilo que ainda pode germinar. Poppy Day é, por fim, uma vigília. Um exercício de atenção perante o que desaparece, um gesto de ternura diante do efémero. Um modo de dizer — contra o esquecimento — que as sementes ainda guardam o futuro.



EN

The paintings that make up Poppy Day were born from the persistence of an image: the poppy capsules after flowering, when the red has already departed, yet the promise of the seed remains. They are traces of a life interrupted and, at the same time, signs of continuity.

In the fields of war, poppies grew over wounded soil — and became the emblem of memory. Here, however, there is no heroism nor epic mourning: only the trace of what resists forgetting. The slender stems rise like lines of breath over the blue — a blue that is both sky and water, air and surface. It is the space where remembrance dissolves, where time flows.

The words L’OUBLI and LA MÉMOIRE, inscribed at the center of the group, do not oppose one another; they coexist. Between them lies a tension, a shared territory where forgetting is not negation, but part of the act of remembering. Paul Ricoeur reminds us that memory is inseparable from forgetting: to
remember is to choose, to preserve some images and let others fall into silence.

Each painting is an attempt to listen to that silence. The painting thus becomes a liquid archive — a space where layers overlap, fade, and re-emerge, like sediments of an interior time. The gesture repeats itself, almost ritualistically, and blue becomes a body of suspended memory.

The remaining poppies — now without petals, only capsules and traces — are also bodies of resistance. They carry the plant’s essential contradiction: from its sap comes opium, the substance of forgetting; from its seeds, the possibility of life. The work thus oscillates between numbness and vigilance, between
dissolution and the impulse to preserve.

The installation of the capsules in breast milk storage bags extends this ambiguity. They are vessels of nourishment and archive — sites of retention and passage. They preserve the dust of memory, that which can still germinate.

Poppy Day is, ultimately, a vigil. An exercise of attention to what disappears, a gesture of tenderness before the ephemeral. A way of saying — against forgetting — that the seeds still hold the future.



Pó da Memória / Dust of Memory

Guardei as cápsulas de papoila dentro de sacos de armazenamento de leite materno. Escolhi estes sacos porque pertencem ao território do cuidado, da preservação e da transmissão. São feitos para conter o que alimenta a vida — e aqui guardam o que a recorda.
Cada saco é uma célula de tempo, um gesto de preservação, mas também de perda. É uma tentativa de guardar aquilo que está destinado a desaparecer.

As hastes secas, dispostas em forma de árvore, desenham uma estrutura orgânica — uma espécie de corpo que respira entre o crescimento e a decomposição. Cada haste prolonga-se no ar como uma lembrança que resiste à gravidade do esquecimento.

À direita, a pequena caixa transparente contém apenas sementes. É o pó da memória. O que resta depois de tudo se desfazer. Ali, a promessa da vida futura— ou talvez apenas o vestígio do que foi.

Interessa-me esse paradoxo: a seiva opiácea que adormece e embala e induz o esquecimento e, dentro das cápsulas, as sementes que guardam a potência de recomeçar. Entre o apagamento e a lembrança, neste trabalho falo da fragilidade da transmissão — daquilo que se tenta conservar e daquilo que inevitavelmente se perde.

Nas sementes permanece a memória — minúscula, resistente, pronta a germinar. A mesma planta que produz o esquecimento contém também a promessa da memória.

Este antagonismo é o centro do meu trabalho: a coexistência da amnésia e da persistência, do entorpecimento e da continuidade. A papoila contém, no mesmo corpo, o impulso para esquecer e a potência de recordar como é viver.

Os sacos transparentes tornam visível o paradoxo da preservação. Contêm algo que já não respira, mas que ainda guarda a possibilidade da vida. Neles suspendo o tempo, entre o que se perdeu e o que pode voltar a nascer.

São cinquenta sacos translúcidos, pequenos arquivos, cofres que contêm um vestígio, uma cápsula que resiste ao desaparecimento. Não são relíquias, nem objetos de luto. São depósitos de memória, frágeis e obstinados.

Entre o esquecimento e a memória, existe este gesto: o de guardar o que não pode ser salvo por completo, mas também o de aceitar que a lembrança, como a semente, precisa de repousar para poder germinar.


EN

Dust of Memory

I place the poppy pods at rest inside breast milk storage bags. Each bag is a cell of time, a gesture of preservation but also of loss. It is an attempt to hold onto what is destined to disappear.

The dried stems, arranged in the shape of a tree, draw an organic structure — a kind of body breathing between growth and decay. Each stem extends into the air like a memory resisting the gravity of forgetting.

To the right, the small transparent box contains only seeds. It is the dust of memory. What remains after everything has dissolved. There lies the promise of future life — or perhaps only the trace of what once was.

I am drawn to this paradox: the opiate sap that induces forgetting, and within the pods, the seeds that hold the potential to begin again. Between erasure and remembrance, this work speaks of the fragility of transmission — of what we try to preserve and what inevitably slips away.

To preserve, here, is also to let go.

Em 1985 foi subsidiada pela F. C. Gulbenkian para investigar a interligação de diversos materiais como o ferro, vidro e aço polido. Tem-se dedicado à interpretação dos fenómenos atmosféricos e telúricos, preservação da natureza, recorrendo a vários processos criativos.

Por um lado, através da escultura, onde explora o reflexo e multiplicação de imagens através da utilização do aço polido em chapa ou em tubo, em associação com o espelho. Esta tem sido uma das vertentes do seu trabalho desde os finais dos anos 80, na recriação de um universo onde o macrocosmo e o microcosmo se interpenetram. Recentemente tem-se dedicado à criação de esculturas/objectos em bronze.

Por outro lado, através do desenho sobre superfícies translúcidas a que chamou skins, e que surgem em 2004, associadas à frottage sobre papel de arroz, que decalca repetidamente de uma matriz. A matriz resultante do corte feito sobre esculturas em bronze, tem sido um dos instrumentos de registo sobre papel, resultando numa série de exposições de que fazem parte Matriz, Seedland , Greenhouse /Semear e Greenhouse II.

A pintura sobre tela e sobre papel, tem estado sempre presente na sua obra.

A instalação e o vídeo, têm feito parte das suas intervenções em espaços institucionais, como “Mesas Postas” na cozinha do Mosteiro de Alcobaça, “Rosa Rosae” no Claustro do Museu Alberto Sampaio em Guimarães, “Love Affair” no Convento dos Capuchos, promovida pela Casa da Cerca de Almada,
“Tormenta” na Ala Sul do Mosteiro de Alcobaça e Seedland no Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Expõe regularmente desde 1981 em Galerias de Arte e Espaços Institucionais. Participou e inúmeras exposições colectivas em Portugal e no estrangeiro.