09 Setembro até 08 Outubro

Miguel Telles da Gama

Movimento Perpétuo

Exposições

Espaço Triângulo

Que linhas de força estranha
me prolongam na paisagem,
me tornam, à sua imagem,
mar ou céu, vale ou montanha?
...
António Gedeão, QUE DE MIM, in “Movimento Perpétuo”


Em Movimento Perpétuo, no Espaço Triângulo da Galeria Diferença, Miguel Telles da Gama apresenta um conjunto de 60 pinturas/ desenhos, nos quais a alternância, entre temperaturas cromáticas quentes , que parecem avançar — e frias — que parecem recuar, cria uma pulsação visual contínua e mantém o olhar em circulação etntre os diferentes planos. Em vez de se anularem, estas polaridades coexistem e alimentam a tensão que anima estes trabalhos.
O título torna‐se, assim, uma experiência visual: o movimento perpétuo deixa de ser apenas um tema e envolve directamente o observador.
Nesta série, M T G desenvolve uma prática em que pintura, desenho e recorte se fundem num único gesto artístico. Sobre o papel, o artista deposita a matéria pictórica e, posteriormente, intervém sobre essa superfície através de cortes de grande precisão, fazendo surgir formas que parecem obedecer a uma
lógica simultaneamente rigorosa e intuitiva.
O papel deixa assim de ser apenas um suporte para a pintura: torna‐se matéria activa, corpo que pode ser atravessado, subtraído e transformado. O corte introduz o vazio como elemento plástico, estabelecendo um diálogo constante entre presença e ausência, superfície e abertura, estrutura e movimento.
A aparente simplicidade das formas contrasta com a complexidade do gesto que lhes dá origem. Cada incisão exige uma precisão quase coreográfica. No resultado, porém, essa perícia torna‐se quase imperceptível: as formas surgem com uma naturalidade surpreendente, como se a mão do artista, em
vez de definir o percurso, seguisse um impulso invisível que guia a linha e determina o instante exacto do corte.
É precisamente nessa tensão entre controlo e entrega, entre cálculo e intuição, que reside uma das forças maiores destes trabalhos. A geometria não se apresenta como uma construção fria ou estática; pelo contrário, parece estar em permanente transformação. Linhas, ângulos, intervalos e vazios estabelecem ritmos visuais que fazem a composição parecer animada por uma energia contínua.

O título Movimento Perpétuo torna‐se, assim, mais do que uma referência ao movimento das formas. É também uma alusão ao próprio processo criativo: à sucessão incessante de gestos, cortes, aproximações e decisões que convertem uma superfície aparentemente imóvel num espaço de circulação e tensão.

Uma abordagem conceptual desta exposição torna‐se particularmente rica quando enquadrada em algumas ideias da História e da Teoria da Arte. O seu título remete para um paradoxo: na física, um “movimento perpétuo” é impossível; na arte, porém, é uma metáfora para a sobrevivência das imagens.
Estas transformam‐se, regressam e adquirem novos significados conforme o contexto.
Esta ideia aproxima‐se do pensamento de Aby Warburg, que defendia que certos gestos, expressões e formas visuais atravessam séculos, reaparecendo continuamente em diferentes épocas.
Há também uma afinidade com Walter Benjamin. Benjamin via a história como uma montagem de fragmentos, não como uma narrativa contínua. De forma semelhante, as pinturas de Movimento Perpétuo não contam uma história fechada; oferecem fragmentos que o observador relaciona livremente.
Cada obra é simultaneamente um ponto de chegada e novo ponto de partida, funcionando como um capítulo de uma narrativa que nunca se conclui.

Miguel Telles Gama (1965)
Vive e trabalha em Lisboa
Expõe com regularidade desde os anos 90, em galerias e instituições. Desenvolve um trabalho centrado na pintura e no desenho.
Das suas últimas exposições destacam-­‐se Lux in Tenebris, Fundação Portuguesa das Comunicações, Lisboa, 2018; Debaixo da Pele (Curadoria José Luís Porfírio), Museu Colecção Berardo, Lisboa 2022; Rio Cor de Sangue (Curadoria João Pinharanda) Galeria do Parque, Vila Nova da Barquinha, 2025. Está representado em várias colecções institucionais e particulares, em Portugal e no estrangeiro.